A ÁGUA NA SEDE DO GRUPO ESCOTEIRO

Iniciei, no Escotismo, aos 11 anos, em 1989. Fui escoteiro, sênior, pioneiro, escotista e dirigente.  Foram, assim, anos e mais anos em contato com os meus amigos e todos juntos numa deliciosa sede de campo, dentro do Parque Ecológico de São Carlos e ao lado da Universidade Federal. Por isso, aos finais de semana tínhamos, à disposição, não só uma mata para nossas atividades, mas um lago que era diversão garantida, sobretudo quando montávamos a tirolesa e saltávamos na água. Era uma grande aventura, quase como nos filmes de ação!

Todos nós, escoteiros do interior do estado, vivemos em contato com a natureza. Picadas de inseto, comida mateira, observar pássaros, rastros de animais, não produzir lixo e recolher aquele que havia no ambiente foi fundamental para a formação de nossa consciência ecológica. Como diziam nossos chefes: “o escoteiro nada deixa no local de acampamento além do obrigado ao proprietário do local e, se possível, deixa mais limpo”. Tornamo-nos, por assim, dizer responsáveis pela produção de nosso lixo e, mais que isso, de nossas ações. À época, podíamos cortar bambus para fazer pioneirias e usávamos sisal para as amarras. Não faz muito, descobri que, em São Carlos, já era difícil, quase impossível, encontrar bambu e usar o sisal para as atividades. Os tempos são outros e natureza já começa a nos cobrar um preço que, tendencialmente, tende a ser bem alto pelas nossas ações no meio ambiente.

Muitos anos, já na vida adulta e professor universitário, fui, além de Sociologia, lecionar disciplinas ligadas à sustentabilidade e à responsabilidade social das empresas. Numa abordagem sustentável, as organizações devem buscar realizar uma gestão assentada na relação equilibrada entre as dimensões ambientais, sociais e econômicas e, ainda, utilizar os recursos atuais, mas sem esgotá-los para as gerações futuras. Recentemente, um colega, professor, postou, na rede social, fotos do Rio Piracicaba. A essa imagem, veio a outra que pude ver pela televisão da Cantareira, responsável por abastecer a Grande São Paulo de água. Em meus 36 anos nunca havia presenciado seca tão intensa. As imagens – que acompanham este escrito – só foram vistas por mim nas reportagens atinentes à seca no sertão nordestino. Triste o que estamos passando. Há, certamente, problemas de gestão por parte do governo estadual e da empresa responsável por explorar esse recurso natural. Há, além disso, o baixo índice de chuvas que tivemos no último verão. Aliás, que verão foi esse? Nunca, jamais, em tempo algum, passei tanto calor, seja em São Paulo ou em São Carlos. Assusta-me deveras imaginar que no verão vindouro o calor se repita e que as chuvas não sejam capazes de encher nossos reservatórios novamente. Os especialistas já apresentaram os dados que indicam que mesmo com chuvas intensas não chegaremos aos níveis de normalidade.

Olhem essa paisagem, da Canteira. Chão rachado como as imagens que, até então, me remetiam ao sertão nordestino:

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E essa do Rio Piracicaba. Essas pedras todas, com um fio de água correndo:

 

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Por mais que  estejamos usando o volume morto, morto estaremos, real e metaforicamente, sem água. Sem usar o recurso de forma consciente teremos sérias dificuldades, como o racionamento e a elevação do valor deste bem: a conhecida lei da oferta e demanda, tão bem explicada pelos economistas.

Vivenciando essa crise de água, estamos, aqui em casa, tentando gastar apenas o necessário de água. Os banhos são bem rápidos. Torneiras abertas por poucos segundos. A água usada no banho de meu filho, com poucos meses de vida, servem para o sanitário e para lavar o chão da cozinha e banheiro. No interior, ao lavar o carro, uso baldes com água, evitando o desperdício ao máximo. Os que tiveram oportunidade de viajar para a Europa sabem o quão é escassa e cara a água usada por lá. Chegaríamos a essa situação em nosso país, mesmo tendo uma das maiores reservas de água doce do mundo? Nossa cultura – assentada na crença de uma natureza abundante e inesgotável – é bastante desrespeitosa em relação à natureza. Há uma falsa ideia de fartura. Sem prever, planejar nossas ações, e usar com parcimônia, teremos graves problemas não só em relação à água, mas, também, a energia elétrica, os combustíveis fósseis e os alimentos.

Assusta-me imaginar que meu filho não possa tomar água lá na sede social do Grupo Escoteiro, em São Carlos. Nossa canaleta permitia que a água que brotava no meio de nossa sede, numa mata, chegasse até a área de nossas atividades. A água, sempre fresca, matou nossa sede e, noutras vezes, permitiu um rápido banho com canequinhas. A água não tem cheiro, cor e gosto, não é? Mentira! A água que bebia aos sábados, no grupo escoteiro, cheirava natureza e tinha gosto de felicidade!

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